desabafo #1

os últimos dias têm sido bastante angustiantes, mas felizmente hoje estou "terapeutizada" o suficiente para identificar possíveis gatilhos e catalisadores.


1. período de adaptação

ok, estou voltando para a UTI do meu hospital de origem pela 4ª vez (acho), eu já sei mais hoje do que sabia das outras vezes, conheço a equipe, entendo um pouco melhor o funcionamento das coisas, fui exposta a mais situações mais vezes até aqui... mas, aparentemente, nem por isso deixa de ser um período de adaptação.

talvez seja aquilo de que toda vez que uma situação se repete eu sou uma pessoa nova, e por isso a situação acaba sendo nova também... será?

uma constante em todo esse período de residência médica (mesmo na residência anterior) é o desejo de desistir. só Deus sabe o quanto eu tenho desejado desistir de tudo, mesmo faltando menos de 1 ano para concluir o programa. mesmo agora me sinto inadequada, incapaz, insegura, uma série de "in-"s... e ok, eu sei que não estou usando régua nenhuma para medir essas coisas e poder mensurar mudanças ao longo do tempo, mas... sabe. tão frustrante isso tudo. sabe? (eu concordando comigo mesma mentalmente)

trabalhar na Medicina continua sendo como rolar uma pedra ladeira acima. todos os dias envolvem tanta interação com as pessoas (nem sei dizer se é pior que sejam conhecidos ou desconhecidos), além das expectativas em cima de mim por eu ser médica e por eu ser residente - e, junto a isso, minha eterna insegurança por crer que não sei quase nada do que deveria a essa altura - além da responsabilidade que vem por consequência, mais a falta de autonomia com meus horários e meus processos, um ritmo de vida que, pior do que não respeitar meu próprio ritmo e funcionamento, parece ser um desafio direto a tudo que poderia servir de suporte emocional num período como esse.

e eu entendo. entendo que Deus me chamou para a Medicina e tem aberto todas as portas necessárias. vejo como Ele me expõe gradualmente às situações e me ensina conforme as necessidades vão se apresentando. sou muito grata, inclusive, porque sei que sem Ele eu estaria no fundo do poço a essa altura.

olho para trás com muito receio, porque a mente resiste a recordar e porque me cobro por não enxergar mudanças que correspondam ao tanto que já caminhei até aqui. o que é injusto, pensando agora, porque não é possível me cobrar se não consigo definir parâmetros para fazer qualquer comparação/mensuração.

no fim das contas, sigo sendo injusta comigo mesma.

se Deus me trouxe até aqui, Ele sabe o porquê. eu, muito honestamente, não sei até hoje por que Medicina. logo eu! mas Ele sabe, então cabe a mim aprender a fazer as pazes com isso.

algo de que me dei conta um dia desses foi: quanto mais cansada e frustrada eu me sinto, mais trabalho Ele me dá. as in, mais trabalho eu recebo para fazer no serviço em que estiver. por meio segundo fiquei sem entender, mas logo em seguida me veio a hipótese: quem sabe Ele me coloque em atividade quando minha mente está no seu limite exatamente para que ela tenha algum descanso? porque quando tenho muito trabalho o dia passa mais rápido e eu me vejo iniciando e concluindo coisas. isso me traz paz. me sinto algo realizada. sinto que não sou uma inútil completa no meu serviço quando termino o dia e consegui levar a cabo o que era preciso.

talvez Deus queira mesmo que eu trabalhe muito. talvez seja o que se espera de todo crente, afinal.

me sinto tão cansada. tão, tão cansada. uma vontade constante de chorar, mas sem que as lágrimas caiam de fato. permanentemente suspensa naquele momento pré-cair das lágrimas. devem ser sentimentos repreendidos, imagino.

o que nos leva finalmente ao próximo tópico:


2. TPM

eis-me aqui, pessoa que ainda não entende direito como o próprio corpo reage ao ciclo menstrual (porque passou boa parte da vida tomando anticoncepcional e desfrutando de uma vida sem as numerosas variáveis que flutuações hormonais teriam trazido). o que sei até o momento é que eu fico MUITO melancólica, e por vezes chorosa. 

dessa vez, veio with a twist. estou melancólica, chorosa & raivosa. o que é estranho, porque não costumo sentir raiva, apenas desprezo e revolta ocasional com coisas pequenas que me irritam, mas logo passam. essa raiva tem sido diferente.

reclamo de cada minor inconvenience, de cada pessoa que faça algo que me desagrade (tudo mentalmente, claro, ninguém precisa sofrer comigo enquanto eu desejo que o mundo acabe logo), e tenho me sentido uma pessoa um pouco mais pesada.

não necessariamente com a gravidade de quem enxerga a vida dando o peso certo às coisas.

pesada como alguém que não consegue decidir qual fardo carregar e está carregando todos ao mesmo tempo.

e essa raiva acaba sendo direcionada a mim mesma também. tem sido ainda mais difícil olhar para as minhas dificuldades com graça, quando tenho oferecido pouca até mesmo para os outros (que costuma ser a parte mais fácil).

esquecida. preguiçosa. desinteressada. molenga. sensível. chata. burra. incapaz. tapada. lenta. antissocial. voluntariosa. desorganizada.

nem foi difícil pensar nesses adjetivos, tenho consciência de que todos vêm rondando minha mente quando olho para mim mesma ao longo dos dias. e talvez eu acredite que as pessoas estejam pensando o mesmo de mim quando me olham. uma ideia ridícula, quando se para para pensar, mas não deixa de ser possível.

não consigo estudar porque tenho pouco tempo fora da residência. não consigo arrumar a casa porque já chego cansada. não consigo deixar a comida pronta porque as louças vivem sujas. não consigo descansar porque vejo todos os afazeres acumulados. não consigo acordar cedo porque não descansei direito. e por aí vai.

olhando para tudo isso que estou escrevendo, fica nítido o quanto tenho me maltratado...

novamente, sigo sendo injusta comigo mesma.


3. minha autopercepção

que é o que permeia todo esse discurso, claramente.

a terapia vem me ajudando a enxergar muitas pontas soltas, alguns emaranhados de ideias, necessidades que eu nunca reconheci para que pudessem ser satisfeitas. e estou sendo vaga assim mesmo porque, mesmo agora, minha mente se recusa a dar forma a esses conceitos. tenho plena consciência de que estou correta na avaliação, mas não consigo ainda dar nomes mais exatos. é um esforço que mal consigo reconhecer que precisa ser feito. como tentar olhar nos olhos de alguém dentro de um sonho. pois bem. vou tentar.

o diagnóstico do TDAH abriu meus olhos para diversos aspectos da minha vida, e assim se iniciou o processo de ressignificação de quem eu sou. coisas como: desorganização, memória extremamente seletiva (preciso aprender a não ficar chamando de falta de memória), dificuldade para estabelecer hábitos, dificuldade para terminar o que comecei, atenção difusa (não necessariamente fraca, mas all over the place), impulsividade, dificuldade com time management... são todas decorrentes de um transtorno que eu sempre tive e sobre o qual eu nunca tive qualquer controle. não são culpa minha ou consequências de uma falha de caráter. são uma falha do meu organismo. eu nasci assim. não é culpa minha (talvez repetir vezes suficientes me ajude a parar de pensar que é culpa minha).

por outro lado, algumas coisas boas decorreram de viver com TDAH e também devem ser reconhecidas, tais como: maior tendência à criatividade, reconhecimento aguçado de padrões, o poder de um hiperfoco bem empregado... e talvez o mais importante até agora: capacidade de entender quando alguém passa pelas mesmas dificuldades e poder oferecer apoio e ajuda.

daí veio o provável diagnóstico recente de Altas Habilidades. que reforço pro meu ego! que emocionante ser reconhecida dessa forma numa fase da vida em que tudo que enxergo é o oposto de altas habilidades minhas. mas várias pessoas reconheceram isso em mim. pode ser que seja mesmo real. pode ser que eu seja mesmo MUITO boa nas coisas em que sou boa (nessas, sim, eu consigo reconhecer alguma habilidade)... só gostaria tanto que fossem altas em todas as áreas da minha vida.

minto. gostaria que fossem altas também na Medicina. meu calcanhar de Aquiles. meu nêmesis. meu ponto fraco no aprendizado.

todo o reforço positivo do mundo na área acadêmica cai por terra ao menor sinal de um reforço negativo. pode nem ser real! minha mente assimila sempre como se fosse. é absurdo e meio ridículo quando olho em retrospectiva.

porque, sendo honesta pelo meu próprio bem, talvez seja necessário elencar aqui meus feitos, meus pontos fortes, o que quer que haja de positivo a meu respeito desde a minha formação acadêmica. dessa vez rebatendo qualquer objeção que minha mente tentar fazer, da forma mais realista possível.

- passei num vestibular difícil.

    minha mente imediatamente rebate com "mas foi na 2ª tentativa, em 44º lugar, e todos seus amigos passaram de primeira".

    minha tréplica: tem gente que passa anos e anos tentando, tudo bem não ter passado de primeira porque isso não me torna menos inteligente ou capaz. provavelmente não aconteceu de primeira porque eu estava passando por dificuldades na época, emocionais (talvez o encerramento de um ciclo com o fim do ensino médio, a depressão de sempre), físicas (como estava "banguela" nas fotos da formatura do 3º ano, sei que estava no meio do tratamento pra minha ortognática, e isso foi mais um de tantos golpes na minha autoestima), além das limitações que o TDAH sempre me impôs com relação a estudos, prazos, disciplina... e ainda assim eu consegui! mesmo em 44º, eu consegui no ano seguinte. mesmo tendo que fazer cursinho. se fosse outra pessoa, eu certamente não a julgaria pela colocação ou pelos recursos empregados para passar, eu diria que o resultado do vestibular só reflete quem teve melhor desempenho para passar naquela prova específica. e é o que vou passar a dizer para mim mesma daqui em diante.

- passei num segundo vestibular com uma nota incrível.

    réplica da minha mente: "mas não era um vestibular concorrido" (não tem muitos "mas" nesse episódio em específico, ainda bem)

    tréplica: concorrido ou não, eu sei que estava competindo com pessoas MUITO inteligentes e mais jovens do que eu, a maioria tinha acabado de sair do ensino médio e ainda estava com o conhecimento fresco em mente, e a maioria tinha vindo de colégios com foco em Exatas, enquanto eu fiz a prova mais velha (tinha me formado há 4 anos) sem formação voltada para a área e, se bem me lembro, estudei por conta própria mesmo em meio à depressão e ao diagnóstico e tratamento de câncer da mamãe. foi também quando notei meu hiperfoco (mesmo ainda não sabendo que tinha nome) e como ele era ativado mais facilmente ao estudar Exatas.

- consegui concluir uma faculdade de Medicina.

    réplica: "foi aos trancos e barrancos, na base da birra, com a nota mínima na imensa maioria das matérias, e claramente com vários lapsos de conhecimento do começo ao fim."

    tréplica: essa é mais difícil, porque as notas são reais e os lapsos também. mas, mesmo que eu não reconhecesse qualquer inteligência necessária pra conseguir concluir o curso, eu consigo reconhecer que terminar um curso que tive que retomar sem ter uma boa base e já tendo esquecido quase tudo àquela altura (voltei quase 4 anos após ter trancado), aprender a falar com todo tipo de gente para descobrir os caminhos internos para resolver as pendências, aprender tais caminhos, gerenciar uma grade de matérias que poderia muito bem ter me enlouquecido, suportar a notícia triste de que demoraria mais 1 ano do que o planejado, encarar o medo da parte prática e me permitir ser vulnerável para pedir ajuda e aprender o que eu não sabia... sim, tudo isso é resiliência. agora, por escrito, fica mais fácil de reconhecer, além da resiliência, crescimento e inteligência. talvez não a inteligência que eu gostaria de enxergar em mim, mas não deixa de ser inteligência. e tudo isso é mérito, sim.

- fiz uma residência médica.

    réplica: "numa área onde estavam sobrando vagas, e que é popularmente conhecida por ser light em relação às demais".

    tréplica: pode ser que tenha sobrado vaga porque Deus quis abrir aquela porta para mim, e eu devo olhar para isso como bênção. Deus me redirecionou para a área na qual Ele desejava que eu atuasse. e nela eu aprendi a ver crianças com amor e graça, e aprendi a cuidar delas. vejo também muitas lacunas no conhecimento específico, mas também vejo que é uma área em que colegas se apoiam e se ajudam, e isso também é presente do Senhor para mim. tudo bem não ter sido numa área difícil de entrar à ocasião, porque se fosse outra pessoa falando o mesmo eu diria que o que importa é o que você faz com a vaga que preencheu. e eu sei que fiz bem. certamente não me daria uma nota alta em questão de aprendizado teórico, mas tive rendimento suficiente para hoje saber fazer o mínimo por uma criança que precise de mim. isso tem muito valor. e sou muito grata a Deus por me capacitar. desconsiderar meu crescimento na Pediatria seria desconsiderar o quanto Deus me moldou naquele período, e o quanto Ele cuidou de mim em meio a toda a dificuldade. não foi light para mim, foi pesado, emocionalmente falando, e tudo bem reconhecer isso também, porque todos temos limites diferentes. tudo bem meu limite ser um pouco mais baixo do que aparenta ser nos meus colegas de profissão. Deus vai continuar cuidando de mim, porque Ele me conhece e sabe do que eu preciso. a Pediatria talvez tenha sido o primeiro presente de Deus que eu reconheci como tal.

- estou fazendo uma segunda residência médica.

    réplica: "mais uma vez foi com vagas sobrando, e com bastante dificuldade para aprender e acompanhar meus colegas".

    tréplica: mais uma vez, uma porta aberta como presente do Senhor. preciso parar de menosprezar as oportunidades que vêm do Céu por mania de menosprezar minhas próprias habilidades. ainda mais porque é uma área que tradicionalmente não tem muita procura, então seria loucura (ou burrice) minha procurar especificamente serviços em que as vagas fossem escassas. além do mais, passei na cidade em que Deus quis que eu passasse, na cidade onde meu marido passou para a área em que Deus queria que ele atuasse, e em tudo isso podemos ver a Sua mão e agradecer por tamanha bondade conosco. sim, tenho dificuldade para aprender e acompanhar meus colegas, especialmente porque minha posição me coloca em constante comparação com eles, que estão num instituto de maior renome e tradição. não é porque se espera grandes coisas deles que eu deva esperar o mesmo de mim mesma. seria uma cobrança injusta. e eu não almejo o mesmo que eles aparentam almejar com a formação nesta área.


estranhamente (mas nem um pouco inesperadamente), me sinto melhor depois de parir esse texto enorme. ainda me sinto melancólica e frustrada com a desorganização ao meu redor. ainda gostaria muito de não precisar trabalhar com Medicina nos próximos dias/semanas/meses... mas a objetividade me ajudou a ajustar a perspectiva.

Deus me trouxe até aqui. Ele que deve ser glorificado e não eu. estou onde Ele quer que eu esteja. Ele vai me capacitar.

quanto a mim, devo continuar fazendo o que devo. também é importante delinear melhor isso, vamos lá.

o que sei hoje que devo fazer:

- amar a Deus e ao meu próximo, o amor ativo ao qual a Bíblia nos convida

- fazer o meu melhor, seja ele qual for, no que eu me propuser a fazer

- cuidar do corpo e da mente que Deus me deu conforme a luz que recebi

- cuidar do mundo que Deus criou

- viver de forma a dar um bom testemunho de Cristo. imagino que isso venha como consequência dos anteriores.